terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Após décadas de saques, Museu Nacional do Afeganistão recupera relíquias


The New York Times

Rod Nordland
Em Cabul (no Afeganistão)


Cada uma das antiguidades que é restituída às salas do bombardeado, saqueado e agora reconstruído Museu Nacional do Afeganistão envia uma mensagem de teimosia e resistência.
 


Essas antiguidades representam mensagens para os membros Talibã, que em 2001 quebraram todos os artefatos do museu que, segundo sua interpretação, guardavam alguma semelhança com figuras humanas ou com animais. Mas essa reconstrução também é uma mensagem para outras pessoas: para os senhores da guerra que saquearam o museu, alguns dos quais ainda estão em posições de poder no Afeganistão, e para os corruptos guardiões do passado, que ficaram de braços cruzados enquanto cerca de 70 mil objetos saíam porta afora.



Apenas alguns anos atrás, o Museu Nacional do Afeganistão, localizado na capital Cabul, era definido pela quantidade de peças de suas coleções que tinham se perdido –cerca de 70% de seu acervo foram destruídos ou roubados, incluindo objetos preciosos que remontam à Idade da Pedra e à do Bronze, passando pelo período do zoroastrismo e do budismo e pelo início do Islã, e que documentavam algumas das culturas antigas mais misteriosas do mundo.

Atualmente, o Museu Nacional pode ser mais bem definido pela quantidade de peças que foram recuperadas.

Trezentos entre os 2.500 objetos mais importantes que o Talibã havia destruído foram cuidadosamente restaurados nos últimos anos, e muitas outras peças estão armazenadas em caixas e bandejas, aguardando sua vez para serem recuperadas.

Os objetos roubados também estão retornando ao museu, após agentes aduaneiros de todo o mundo terem recebido informações sobre como identificar artefatos de origem afegã. Nos últimos anos, a Interpol e a Unesco uniram forças com governos de todo o mundo para confiscar e retornar pelo menos 857 objetos --alguns deles de valor inestimável, como as estatuetas de terracota representando princesas da Báctria (região do atual Afeganistão), com 4.000 anos de idade, que haviam desaparecido do Museu Nacional. Outros 11 mil objetos foram devolvidos depois de serem apreendidos pelas autoridades de fronteira dentro do próprio território do Afeganistão.

A recente modernização do sistema de segurança do museu, financiada pelo governo dos Estados Unidos, acabou de ser concluída, e agora o prédio mantém pelo menos um nível satisfatório de proteção contra o tipo de pilhagem que vinha atormentando a instituição repetidamente ao longo das últimas três décadas e meia.


E uma equipe de arqueólogos do Instituto Oriental da Universidade de Chicago está trabalhando no local há um ano e meio --com a ajuda de uma subvenção do governo dos EUA, que deve durar três anos-- para registrar todos os objetos pertencentes às coleções do museu, criando um registro digital. Esse registro se destina a proteger as peças contra roubos futuros, e o projeto também ajudará na realização das restaurações, além de servir como um recurso para estudiosos de todo o mundo.

"Se você não sabe o que possui, você não é capaz de proteger suas peças", disse Michael T. Fisher, arqueólogo norte-americano que coordena a equipe de Chicago. "Ao tomar conhecimento de tudo o que você tem, toda a história se abre diante de você, e é incrível o que se pode ver. Uma boa parte dessa coleção é de nível internacional."

Omara Khan Masoudi é o diretor do museu. Ele não é formado em arqueologia, mas tem credenciais ainda mais importantes: é um dos principais guardiões do tesouro da instituição. Esses guardiões são os homens que mantinham as chaves dos cofres dentro dos quais alguns dos maiores tesouros do museu estavam escondidos, incluindo o tesouro báctrio, uma coleção de requintados artefatos de ouro e prata que datam de mais de 2.000 anos atrás.

Usando de sua astúcia e de imposturas, Masoudi e seus companheiros guardiões mantiveram muitos desses objetos de valor --principalmente aqueles mais fáceis de serem derretidos-- seguros durante a violenta guerra civil do país e o regime islâmico que se seguiu.


Eles esconderam algumas das melhores estátuas em salas do Ministério da Cultura ou em cantos obscuros das salas de armazenamento espalhadas por todo o museu, preservando muitas delas antes do ataque furioso do Talibã, ocorrido em março de 2001. Nessas poucas semanas de fúria, os combatentes islâmicos se apressaram em destruir imagens de pessoas ou de animais, consideradas por eles como sacrílegas, incluindo as antigas e gigantes estátuas de Buda, localizadas na província de Bamian.

Depois desse ataque, pessoas como Abdullah Hakimzada, um restaurador que passou os últimos 33 anos trabalhando no museu, foram chamadas para varrer os fragmentos dos objetos que o Talibã havia destruído, distribuindo muitos dos cacos apressadamente em sacos e caixas, que mais tarde ajudariam no trabalho de restauro.

"Se nós tivéssemos tempo e recursos suficientes à nossa disposição, poderíamos restaurar tudo", disse ele.
Hakimzada também foi um dos principais guardiões de três cofres localizados dentro do palácio presidencial, cofres que o Talibã nunca encontrou.

Depois de anos de danos causados pelo Talibã e pelos senhores da guerra afegãos, muitos dos quais saquearam as coleções do museu a pedido de ricos colecionadores, o museu estava uma bagunça ao ser reaberto, em 2004. Seus depósitos estavam lotados de caixas e sacos cheios de fragmentos, e até mesmo objetos intactos tinham se deteriorado durante os anos em que o museu ficou sem grande parte do teto.

Desde então, várias equipes de arqueólogos, principalmente equipes francesas, ajudaram a reformar e a reorganizar o museu. Restauradores como Hakimzada foram enviados ao exterior para estudar as técnicas de restauração usadas por museus da Europa e dos EUA.

Quando a equipe de Fisher começou a registrar e digitalizar a coleção, em 2012, foi como fazer arqueologia dentro do próprio museu.

"Às vezes, nos sentimos como se estivéssemos escavando o presente, como se estivéssemos visitando o museu e observando o que aconteceu", disse ele.

Durante o processo, ocorreram descobertas marcantes, muitas das quais ainda não foram colocadas em exposição por falta de espaço e de recursos para a organização de uma mostra. Um novo local para o museu está previsto, mas o projeto ainda está em fase de captação de recursos.

Alguns dos sucessos mais satisfatórios da empreitada de recuperação da instituição afegã foram as restaurações de objetos despedaçados pelos talibãs. Muitas vezes, os arqueólogos não sabiam nem mesmo a que objeto os fragmentos pertenciam.

"Era como pegar 50 quebra-cabeças, daqueles mais difíceis de montar e com as peças todas misturadas, sem saber se você tem todas as peças e sem ter nenhuma imagem para te guiar, e montá-los", disse Fisher.

Dificilmente um único dia se passa sem que os arqueólogos de Chicago descubram algum novo e intrigante objeto nos depósitos, como uma tampa de barro com uma inscrição em Kharoshti, uma língua extinta, encontrada em dezembro passado.

"Há tantas peças que são muito, muito, muito bonitas", disse Masoudi. "Mas, primeiro, nós precisamos de um novo edifício".

As joias da coroa entre todas as coleções do museu são as peças do tesouro báctrio, recuperadas em 1978 por arqueólogos russos em túmulos antigos localizados no norte do Afeganistão.

Essas peças têm estado em exposições externas desde 2007, e já foram vistas na França, na Holanda, na Grã-Bretanha, na América do Norte e na Austrália. Elas garantiram ao museu uma importante fonte de renda, que soma US$ 3,5 milhões até o momento.

Mas, como a guerra contra o Talibã se estendeu, alguns aqui no Afeganistão veem mais um bom motivo para manter essas peças em exposições externas.

"Eu, pessoalmente, espero que elas nunca mais voltem ao Afeganistão", disse Hakimzada. "Pelo menos, quando vemos o local onde as peças estão agora, nós sabemos que elas estão seguras".

Tradutor: Cláudia Gonçalves

Fonte: UOL Internacional
Matéria Original:  The New York Times

domingo, 24 de novembro de 2013

Como a Albânia protegeu os judeus dos nazistas




The New York Times
Joseph Berger

Houve um punhado de países europeus onde a máquina de matar nazista engripou, mas poucas dessas históricas parecem mais dignas de nota e são menos conhecidas do que a da Albânia.

 
Albaneses comuns ajudaram a transferir judeus de esconderijo para esconderijo, para fugir da captura, e assim o país salvou praticamente todos os 200 judeus nativos e outros 400 judeus refugiados da Alemanha e Áustria. O país também ajudou a esconder centenas mais de terras nos Bálcãs ocupadas pelos nazistas.

"A Albânia foi um dos únicos países europeus a ter mais judeus no fim da guerra do que no início da guerra", disse Michael Berenbaum, ex-diretor do projeto do Museu Memorial do Holocausto nos EUA.

Um quadro completo desse resgate só surgiu no início de 1990, depois do colapso de um governo comunista particularmente obscuro e repressivo, e foi confirmado pelo Yad Vashem, o instituto de pesquisa do Holocausto, em 2007. Ele vai ser recontado em 8 de dezembro no Museu de Herança Judaica em Nova York, quando descendentes de judeus resgatados e de albaneses responsáveis pelo resgate darão depoimentos.

A Albânia tem razões práticas para querer que essa história seja conhecida. O país está buscando adesão à União Europeia mas suas chances estão prejudicadas por um histórico de corrupção enraizada. A história de resgate não só destaca um episódio de magnanimidade albanesa, mas, num momento em que a Albânia promete limpar seu governo, ela também mostra que os albaneses cumprem suas promessas.

A história do resgate, disse Ferit Hoxha, embaixador albanês para as Nações Unidas, mostra que "embora estivéssemos fechados num dos regimes comunistas mais duros, as pessoas desta nação são nobres e tão capazes de agir com coragem como qualquer um Europa".

Na maior parte da Europa, a Solução Final foi extremamente eficiente: 90% dos 3,3 milhões de judeus da Polônia foram mortos, 88% dos 240 mil judeus da Alemanha, 77% por cento dos 70 mil judeus da Grécia, com números semelhantes e assustadores em outros lugares.

A diferença excepcional na Albânia, dizem especialistas sobre o episódio, estava enraizada numa crença nacional chamada 'besa' que obriga os albaneses a oferecer abrigo e passagem seguro para qualquer um que busque proteção, particularmente se houve uma promessa disso. A omissão resulta em perda da honra e da reputação.

"Isso envolve a proteção sem exceção a um convidado, mesmo ao ponto de perder a própria vida", escreveu Shirley Cloyes DioGuardi, uma das organizadoras do evento em Nova York, cujo marido, ex-deputado Joseph H. DioGuardi, visitou a Albânia no início de 1990 e ajudou a descobrir detalhes sobre o resgate.



Outra explicação, diz Cloyes DioGuardi, é que, na Albânia, um país católico romano e ortodoxo oriental até que o domínio otomano levou a conversões para o islã a partir do século 15, a etnia sempre teve mais valor do que a religião e a piedade é fervorosa. "Sabíamos que nossos inimigos queriam usar religião para nos dividir e conquistar, mas sabíamos que tínhamos o mesmo sangue", disse Akim Alickaj, um albanês étnico criado em Kosovo que é dono de uma agência de viagens e cujo pai ajudou a resgatar judeus. "A religião muda, mas a nação e o sangue não podem ser alterados."

Dois outros países também preservara a maioria de seus judeus. Quando os ocupantes alemães ordenaram a deportação de 7.800 judeus da Dinamarca, em 1943, vizinhos, colegas e ativistas, numa manifestação quase espontânea de ajuda e de resistência, transportaram mais de 7 mil judeus, a maior parte em barcos de pesca, por um canal até a neutra Suécia, de acordo com Bo Lidegaard, editor-chefe do jornal Politiken.

Bulgária se aliou aos nazistas e entregou mais de 11 mil judeus da Macedônia e Trácia ocupadas para deportação para os campos de extermínio. Mas quando uma ordem veio para deportar os cidadãos judeus da própria Bulgária, membros do parlamento e líderes religiosos fizeram pressão para o governo resistir, e 48 mil judeus sobreviveram.

Quando os nazistas entraram na Albânia, em setembro de 1943, tomando o país dos fascistas italianos, mais brandos, dois judeus que moravam na cidade de Vlora – Rafael Jakoel e seu cunhado – reuniram-se com o prefeito. Ele disse aos irmãos, de acordo com a neta de Jakoel, Felicita: "Enquanto vocês estiverem aqui, não têm com o que se preocupar, mas os alemães são os alemães, então é melhor ir para a capital."

Felicita Jakoel, em 1992, com seu pai, Josef, que conseguiu se esconder dos nazistas com a ajuda de albaneses.

 Rafael Jakoel e seu cunhado foram a Tirana para se encontrar com o ministro de interior, Xhafer Deva, de um governo aparentemente fascista que colaborava com o nazismo. O ministro até mostrou a eles uma lista de judeus que os alemães haviam pedido. No entanto, o sentimento de besa era tão forte que ele não entregou as pessoas da lista, disse Felicita Jakoel.

"Enquanto estivermos aqui, vocês não precisam se preocupar", disse ele, de acordo com Felicita Jakoel, que hoje, como muitos judeus albaneses, vive em Israel. "Mas se algo nos acontecer você terá que cuidar de si."

Tradução: Eloise de Vylder

Fonte: Uol Internacional - The New York Times
Matéria Original: The New York Times

domingo, 17 de novembro de 2013

Kennedy passa de herói a equivocado estadista em livros didáticos dos EUA



The New York Times

Adam Clymer
Em Washington (EUA)

O presidente John F. Kennedy que os alunos aprendem hoje não é o JFK de seus avós. Em um livro didático de segundo grau escrito por John M. Blum em 1968 , Kennedy foi um herói trágico, ceifado muito cedo de um mandato transformador, que em seus meros mil dias no cargo "ressuscitaram a ideia de uma América jovem, em busca, progressiva, enfrentando o futuro com confiança e esperança."



 Em meados dos anos 80, essa excitação inebriante já era uma memória distante, e Kennedy uma memória diminuída. Um livro escrito em 1987 por James A. Henretta e vários colegas, queixou-se do véu de "mitologização" sobre seu mandato e disse que as grandes esperanças que ele gerou produziram apenas "escassas realizações legislativas".

A primeira – e para muitos a última – lição aprofundada que os estudantes norte-americanos aprendem sobre o 35º presidente vêm dos livros didáticos do segundo grau. E na véspera do aniversário do assassinato de JFK, há 50 anos, uma revisão de mais de duas dezenas de livros escritos desde então mostra que os retrato dele desde então, mostra que a imagem dele caiu acentuadamente ao longo dos anos.

Em geral, o retrato evoluiu de um jovem presidente carismático que inspirou os jovens do mundo todo para um extremamente falho, de alguém cuja oratória superou as realizações. Evitar uma guerra na crise dos mísseis de Cuba recebeu menos atenção e respeito. Os retrocessos legislativos e um envolvimento maior no Vietnã receberam mais. O glamour da era Kennedy parecia mais ilusão do que a realidade.

Por exemplo, um livro de segundo grau de 1975 escrito por Clarence Ver Steeg e Richard Hofstadter dizia que ao lidar com a crise dos mísseis cubanos em 1962, "a verdadeira natureza de estadista de Kennedy ficou totalmente aparente". Em "Um povo e uma nação", eles disseram que seu limitado tratado de proibição de testes nucleares em 1963 "foi o princial passo em direção à paz desde o início da Guerra Fria."

Quanto aos direitos civis, dizem, seu governo "não teve cooperação do Congresso". Mesmo assim, escreveram, equivocadamente, "ônibus, hotéis, motéis e restaurantes em grande parte aboliram a segregação" em sua presidência. A maioria dessas mudanças aconteceu quando o Ato de Direitos Civis foi assinado por seu sucessor, Lyndon B. Johnson, em 1964.

Usando o mesmo título em 1982, Mary Beth Norton e vários outros assumiram uma abordagem muito diferente em um livro para o ensino superior amplamente utilizado hoje em cursos de Advanced Placement [cursos avançados para ingressar na universidade].

Eles disseram que FJK "defendeu os direitos civis com uma falta de vigor notável". Eles o culparam pela crise dos mísseis, dizendo que os temores de invasão cubana-soviética foram alimentados pelo pouso na Baía dos Porcos em 1961 e outras ações dos EUA contra Cuba. Eles disseram que o verdadeiro legado de Kennedy foi "uma imensa expansão militar que ajudou a incitar os russos a uma acelerada corrida armamentista".

Em 2009, a "Jornada Americana" de Joyce Appleby disse sobre a crise dos mísseis: "Embora parecesse uma vitória na época, deixou um governo comunista intacto a poucos quilômetros da costa norte-americana. A humilhação de ceder também levou os soviéticos a iniciarem a maior escalada militar em tempos de paz da história."

Há uma grande variedade de motivos para esta mudança. Antes de mais nada, o fascínio pelo presidente jovem e belo e seu assassinato em Dallas elevaram Kennedy a um grau de heroísmo histórico impossível de se manter.

Outro é que os novos escritores e editores acrescentaram persectivas diferentes. Em particular, a geração do Vietnã começou a escrever e editar, e o papel de Kennedy na guerra começaram a ganhar importância. Além disso, seus casos extraconjugais vieram a público, alimentando as críticas. E o lançamento de fitas da Casa Branca, a partir de 1984, mostrou um político frio e pragmático, não o idealista em questões como os direitos civis sobre quem as pessoas ouviram e fantasiaram.

Finalmente, os anos 80 tiveram uma mudança na historiografia dos livros didáticos. Gilbert Sewall, diretor do Conselho Americano de Livros Didáticos, uma organização sem fins lucrativos que analisa materiais educativos, disse que a abordagem antiga era mais concentrada nos sucessos da história norte-americana. Nos anos 80, disse ele, isso foi substituído por uma abordagem "revisionista" que não só se concentrou em injustiças como os maus-tratos aos índios, mas também enfatizou as falhas de personagens antes tratados como heróis, como a atitude escravagista de alguns dos fundadores da nação. "O livro de Norton trouxe este revisionismo com clareza", disse ele.

Quanto a alguns aspectos da sua presidência, houve pouca mudança. Os livros didáticos oferecem visões positivas sobre o Corpo da Paz e o programa espacial. E a invasão fracassada à Baía dos Porcos em Cuba é tachada de um "fiasco" várias vezes. Mas os direitos civis, o Vietnã e a crise dos mísseis provocaram uma mudança nas visões.

Em seu livro de 1968 intitulado "Experiência Nacional: Uma história dos Estados Unidos", Blum disse que primeiro Kennedy se "concentrou" em ações do executivo, mas que em junho de 1963, ele "lançou uma nova batalha por leis novas e mais abrangentes de direitos civis". Essa medida, segundo ele, estava a caminho de ser promulgada quando Kennedy morreu."

Do final dos anos 80 em diante, expressões como "perder tempo", "dúvida" e "em cima do muro" eram comumente usadas para descrever a postura inicial de Kennedy. Seu projeto de lei de 1963 foi descrito em geral como "irremediavelmente paralisado", "amarrado" ou com "pouca chance de aprovação" no Congresso antes de sua morte.

Sobre a crise dos mísseis, Henry Bragdon elogiou Kennedy em seu livro de 1981 "História de uma Nação Livre", por exercitar a "moderação" e não se vangloriar da retirada soviética. Blum escreveu: " O triunfo norte-americano foi um tributo à combinação de resistência e moderação de Kennedy e à sua compreensão precisa dos usos do poder".

Semelhante ao tratamento do livro Norton, Carol Berkin e Leonard Wood escreveram em "Terra da Esperança: Uma História dos Estados Unidos" que embora "Kennedy houvesse identificado com sucesso o blefe de Khrushchev", sua vitória era "vazia" porque o líder soviético havia sido expulso por linhas-dura que "começaram a maior escalada militar em tempos de paz da história".

Ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy: herói ou farsa?
 
Esta conclusão foi leve em comparação com a visão de Andrew Cayton no livro "Estados Unidos: Caminhos para o presente", de 1998. Cayton escreveu que, embora Kennedy parecesse um "herói" inicialmente, críticos mais tardios o achavam "imprudente". Ele escreveu: "Kennedy não usou os canais diplomáticos tradicionais para tentar resolver a crise, mas proclamou sua disposição de chegar à iminência de uma guerra nuclear e ir além. Ele evitou o desastre, observou Dean Acheson mais adiante, por "simples sorte".

Sobre a guerra do Vietnã, alguns dos primeiros livros ignoravam completamente Kennedy, tratando-o como uma guerra exclusivamente de Johnson. Outros diziam simplesmente que ele "ampliara" a ajuda dos EUA ao Vietnã do Sul. Em 1981, Bragdon escreveu que antes de sua morte houve "evidências de que Kennedy havia decidido que a situação no Vietnã era desesperançosa e havia decidido retirar as tropas norte-americanas do país."

Mas os livros mais recentes o chamaram de "Guerreiro Frio", um termo depreciativo, e enfatizaram que ele expandiu a guerra do Vietnã. Muitos foram céticos quanto a uma possível retirada.

Muitos textos de diferentes décadas, mesmo aqueles que o criticaram como o livro de Norton de 1982, reconheceram que Kennedy foi um líder que alimentou a esperança. O livro de Norton de 1982, em geral negativo, diz que ele "inspirou o idealismo nos norte-americanos".

Além disso, houve um reconhecimento generalizado de que Kennedy se tornou um melhor presidente durante seus 34 meses no cargo.

Gary Nash, cuja "Odisseia Americana" de 1991 disse que as "realizações fragmentadas" de Kennedy não foram grande coisa, ainda assim disse que Kennedy "aperfeiçoou-se no cargo" e concluiu: "à medida que seu mandato progrediu, suas iniciativas se tornaram mais ousadas, e a forma como lidou com o Congresso ficou mais agressiva e confiante."

Tradução de UOL Internacional - The New York Times
Versão Original:  The New York Times

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A América Latina e sua esquerda conservadora

Texto de Maye Primera, do El País


Nicolás Maduro, que declarou ter reencontrado a fé depois de se declarar ateu aos 18 anos por causa do comportamento da Igreja Católica
Nicolás Maduro, que declarou ter reencontrado a fé depois de se declarar ateu aos 18 anos por causa do comportamento da Igreja Católica


Persignar-se e rezar ave-marias é reação comum entre a maioria dos presidentes identificados com a esquerda na América Latina, quando em seus países se invocam reformas ligadas aos direitos civis que contrariam a tradição. Em temas como a descriminalização do aborto ou o consumo de drogas brandas e o estabelecimento do casamento homossexual, suas posições tendem ao conservadorismo e a mensagem religiosa é incorporada cada vez com maior frequência em seus discursos políticos e em sua argumentação. No continente onde convive a maior comunidade católica do mundo, a esquerda parece ter-se convertido.

"Que façam o que quiserem, eu jamais aprovarei a descriminalização do aborto", disse em 19 de outubro passado o presidente equatoriano, Rafael Correa, que define a si mesmo como "humanista, católico e de esquerda". Correa inclusive ameaçou demitir-se se os parlamentares do bloco governista, a Aliança País, votassem a favor de incluir essa reforma no novo Código Penal. "Se continuarem essas traições e deslealdades (...) apresentarei minha renúncia ao cargo", advertiu o presidente equatoriano na mesma oportunidade. O presidente da Conferência Episcopal do Equador, monsenhor Antonio Arregui, celebrou de imediato a postura de Correa "pela valentia e a nobreza de ânimo com que falou".
O tema do aborto é especialmente delicado entre a esquerda mais revolucionária e antiga. A Nicarágua e El Salvador, onde governam respectivamente o líder da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, Mauricio Funes, e o sandinista Daniel Ortega, são os dois países em que se pune o aborto com maior severidade, sem que haja perspectivas de uma reforma da lei. O governo de Funes foi criticado por não intervir a tempo no polêmico caso de Beatriz, uma jovem salvadorenha que corria perigo de morte devido a uma gravidez inviável, que finalmente foi interrompida por um "parto induzido" que terminou em cesariana. Daniel Ortega e sua mulher, Rosario Murillo, também se opuseram firmemente à possibilidade de descriminalização do aborto terapêutico. Depois de toda uma vida de ateísmo, o casal decidiu se casar na Igreja Católica em 2005 e agora diz liderar uma revolução "cristã, socialista e solidária"; o cardeal Miguel Obando y Bravo, ex-inimigo do sandinismo, oficiou o casamento e agora costuma inaugurar com uma oração os atos públicos da Frente Sandinista.

Deus também é onipresente nos discursos do venezuelano Nicolás Maduro, que declarou ter reencontrado a fé depois de se declarar ateu aos 18 anos por causa do comportamento da Igreja Católica. "Hugo Chávez fez de nós verdadeiros cristãos", disse o presidente venezuelano em 7 de abril passado, durante um ato de campanha para as eleições presidenciais do dia 14, nas quais foi declarado vencedor. A descriminalização do aborto e do consumo de drogas como maconha, ou o estabelecimento do matrimônio homossexual, não são sequer tema de debate na Venezuela governada por Maduro, nem o foram durante os 14 anos de mandato de Chávez. Pelo contrário, a condição de homossexual é assumida pela nomenclatura do chavismo como desonrosa. O próprio Maduro, sendo chanceler, qualificou a liderança opositora de "homossexuais e fascistas", durante um discurso transmitido pela rede de TV estatal em 12 de abril de 2012.

Além da animosidade no uso da linguagem, há analistas como o venezuelano Teodoro Petkoff – editor do jornal "TalCual" de Caracas, ex-militante comunista e ex-guerrilheiro - que consideram que a esquerda latino-americana está dividida em dois grandes blocos, que definem sua posição. "Há uma esquerda ideologicamente formada, a mais antiga, que costuma assumir com muita coragem posturas que confrontam o peso da tradição", indica, referindo-se à esquerda uruguaia, liderada pelo presidente José Mujica, e a setores da esquerda brasileira e argentina.
Há outra esquerda, afirma o editor de "TalCual", que se define em termos políticos mais que ideológicos e que atende ao peso de tradições morais centenárias, compartilhadas pelo grosso da população da América Latina. "Essa espécie de neoesquerda de origem chavista, que de esquerda só tem o apelativo, é absolutamente tradicionalista nessas questões. Em alguns casos isto corresponde a uma atitude sincera sobre assuntos morais e éticos que não separam religião de política. Em outros, é puro oportunismo, na tentativa de se manter perto da clientela eleitoral", conclui Petkoff.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalve

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A REVISTA HISTORIEN TORNA PÚBLICA A SUA CHAMADA DE COLABORAÇÕES PARA O SEU 9° VOLUME


segunda-feira, 13 de maio de 2013