
Adam Clymer
Em Washington (EUA)
Em Washington (EUA)
O presidente John F. Kennedy que os alunos aprendem hoje não é o JFK de
seus avós. Em um livro didático de segundo grau escrito por John M.
Blum em 1968 , Kennedy foi um herói trágico, ceifado muito cedo de um
mandato transformador, que em seus meros mil dias no cargo
"ressuscitaram a ideia de uma América jovem, em busca, progressiva,
enfrentando o futuro com confiança e esperança."
Em meados dos anos 80, essa excitação inebriante já era uma memória
distante, e Kennedy uma memória diminuída. Um livro escrito em 1987 por
James A. Henretta e vários colegas, queixou-se do véu de "mitologização"
sobre seu mandato e disse que as grandes esperanças que ele gerou
produziram apenas "escassas realizações legislativas".
A primeira – e para muitos a última – lição aprofundada que os
estudantes norte-americanos aprendem sobre o 35º presidente vêm dos
livros didáticos do segundo grau. E na véspera do aniversário do
assassinato de JFK, há 50 anos, uma revisão de mais de duas dezenas de
livros escritos desde então mostra que os retrato dele desde então,
mostra que a imagem dele caiu acentuadamente ao longo dos anos.
Em geral, o retrato evoluiu de um jovem presidente carismático que
inspirou os jovens do mundo todo para um extremamente falho, de alguém
cuja oratória superou as realizações. Evitar uma guerra na crise dos
mísseis de Cuba recebeu menos atenção e respeito. Os retrocessos
legislativos e um envolvimento maior no Vietnã receberam mais. O glamour
da era Kennedy parecia mais ilusão do que a realidade.
Por exemplo, um livro de segundo grau de 1975 escrito por Clarence Ver
Steeg e Richard Hofstadter dizia que ao lidar com a crise dos mísseis
cubanos em 1962, "a verdadeira natureza de estadista de Kennedy ficou
totalmente aparente". Em "Um povo e uma nação", eles disseram que seu
limitado tratado de proibição de testes nucleares em 1963 "foi o
princial passo em direção à paz desde o início da Guerra Fria."
Quanto aos direitos civis, dizem, seu governo "não teve cooperação do
Congresso". Mesmo assim, escreveram, equivocadamente, "ônibus, hotéis,
motéis e restaurantes em grande parte aboliram a segregação" em sua
presidência. A maioria dessas mudanças aconteceu quando o Ato de
Direitos Civis foi assinado por seu sucessor, Lyndon B. Johnson, em
1964.
Usando o mesmo título em 1982, Mary Beth Norton e vários outros
assumiram uma abordagem muito diferente em um livro para o ensino
superior amplamente utilizado hoje em cursos de Advanced Placement
[cursos avançados para ingressar na universidade].
Eles disseram que FJK "defendeu os direitos civis com uma falta de
vigor notável". Eles o culparam pela crise dos mísseis, dizendo que os
temores de invasão cubana-soviética foram alimentados pelo pouso na Baía
dos Porcos em 1961 e outras ações dos EUA contra Cuba. Eles disseram
que o verdadeiro legado de Kennedy foi "uma imensa expansão militar que
ajudou a incitar os russos a uma acelerada corrida armamentista".
Em 2009, a "Jornada Americana" de Joyce Appleby disse sobre a crise dos
mísseis: "Embora parecesse uma vitória na época, deixou um governo
comunista intacto a poucos quilômetros da costa norte-americana. A
humilhação de ceder também levou os soviéticos a iniciarem a maior
escalada militar em tempos de paz da história."
Há uma grande variedade de motivos para esta mudança. Antes de mais
nada, o fascínio pelo presidente jovem e belo e seu assassinato em
Dallas elevaram Kennedy a um grau de heroísmo histórico impossível de se
manter.
Outro é que os novos escritores e editores acrescentaram persectivas
diferentes. Em particular, a geração do Vietnã começou a escrever e
editar, e o papel de Kennedy na guerra começaram a ganhar importância.
Além disso, seus casos extraconjugais vieram a público, alimentando as
críticas. E o lançamento de fitas da Casa Branca, a partir de 1984,
mostrou um político frio e pragmático, não o idealista em questões como
os direitos civis sobre quem as pessoas ouviram e fantasiaram.
Finalmente, os anos 80 tiveram uma mudança na historiografia dos livros
didáticos. Gilbert Sewall, diretor do Conselho Americano de Livros
Didáticos, uma organização sem fins lucrativos que analisa materiais
educativos, disse que a abordagem antiga era mais concentrada nos
sucessos da história norte-americana. Nos anos 80, disse ele, isso foi
substituído por uma abordagem "revisionista" que não só se concentrou em
injustiças como os maus-tratos aos índios, mas também enfatizou as
falhas de personagens antes tratados como heróis, como a atitude
escravagista de alguns dos fundadores da nação. "O livro de Norton
trouxe este revisionismo com clareza", disse ele.
Quanto a alguns aspectos da sua presidência, houve pouca mudança. Os
livros didáticos oferecem visões positivas sobre o Corpo da Paz e o
programa espacial. E a invasão fracassada à Baía dos Porcos em Cuba é
tachada de um "fiasco" várias vezes. Mas os direitos civis, o Vietnã e a
crise dos mísseis provocaram uma mudança nas visões.
Em seu livro de 1968 intitulado "Experiência Nacional: Uma história dos
Estados Unidos", Blum disse que primeiro Kennedy se "concentrou" em
ações do executivo, mas que em junho de 1963, ele "lançou uma nova
batalha por leis novas e mais abrangentes de direitos civis". Essa
medida, segundo ele, estava a caminho de ser promulgada quando Kennedy
morreu."
Do final dos anos 80 em diante, expressões como "perder tempo",
"dúvida" e "em cima do muro" eram comumente usadas para descrever a
postura inicial de Kennedy. Seu projeto de lei de 1963 foi descrito em
geral como "irremediavelmente paralisado", "amarrado" ou com "pouca
chance de aprovação" no Congresso antes de sua morte.
Sobre a crise dos mísseis, Henry Bragdon elogiou Kennedy em seu livro
de 1981 "História de uma Nação Livre", por exercitar a "moderação" e não
se vangloriar da retirada soviética. Blum escreveu: " O triunfo
norte-americano foi um tributo à combinação de resistência e moderação
de Kennedy e à sua compreensão precisa dos usos do poder".
Semelhante ao tratamento do livro Norton, Carol Berkin e Leonard Wood
escreveram em "Terra da Esperança: Uma História dos Estados Unidos" que
embora "Kennedy houvesse identificado com sucesso o blefe de
Khrushchev", sua vitória era "vazia" porque o líder soviético havia sido
expulso por linhas-dura que "começaram a maior escalada militar em
tempos de paz da história".
![]() |
Ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy: herói ou farsa? |
Esta conclusão foi leve em comparação com a visão de Andrew Cayton no
livro "Estados Unidos: Caminhos para o presente", de 1998. Cayton
escreveu que, embora Kennedy parecesse um "herói" inicialmente, críticos
mais tardios o achavam "imprudente". Ele escreveu: "Kennedy não usou os
canais diplomáticos tradicionais para tentar resolver a crise, mas
proclamou sua disposição de chegar à iminência de uma guerra nuclear e
ir além. Ele evitou o desastre, observou Dean Acheson mais adiante, por
"simples sorte".
Sobre a guerra do Vietnã, alguns dos primeiros livros ignoravam
completamente Kennedy, tratando-o como uma guerra exclusivamente de
Johnson. Outros diziam simplesmente que ele "ampliara" a ajuda dos EUA
ao Vietnã do Sul. Em 1981, Bragdon escreveu que antes de sua morte houve
"evidências de que Kennedy havia decidido que a situação no Vietnã era
desesperançosa e havia decidido retirar as tropas norte-americanas do
país."
Mas os livros mais recentes o chamaram de "Guerreiro Frio", um termo
depreciativo, e enfatizaram que ele expandiu a guerra do Vietnã. Muitos
foram céticos quanto a uma possível retirada.
Muitos textos de diferentes décadas, mesmo aqueles que o criticaram
como o livro de Norton de 1982, reconheceram que Kennedy foi um líder
que alimentou a esperança. O livro de Norton de 1982, em geral negativo,
diz que ele "inspirou o idealismo nos norte-americanos".
Além disso, houve um reconhecimento generalizado de que Kennedy se tornou um melhor presidente durante seus 34 meses no cargo.
Gary Nash, cuja "Odisseia Americana" de 1991 disse que as "realizações
fragmentadas" de Kennedy não foram grande coisa, ainda assim disse que
Kennedy "aperfeiçoou-se no cargo" e concluiu: "à medida que seu mandato
progrediu, suas iniciativas se tornaram mais ousadas, e a forma como
lidou com o Congresso ficou mais agressiva e confiante."
Tradução de UOL Internacional - The New York Times
Versão Original: The New York Times
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