A Historien foi um periódico científico-acadêmico mantido pelo Colegiado de História da UPE – Campus Petrolina, disponível em versão eletrônica. A nossa proposta pautou-se pelo incentivo à produção textual dos alunos do curso de História, visando a expansão do conhecimento em história por meio da produção dos próprios acadêmicos. Encerramos nossas atividades em 2014 e mantemos todas as edições disponíveis através de nosso blog. Agradecemos a todos que colaboraram ao longo de todas as edições.
domingo, 6 de abril de 2014
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Após décadas de saques, Museu Nacional do Afeganistão recupera relíquias

Rod Nordland
Em Cabul (no Afeganistão)
Cada uma das antiguidades que é restituída às salas do bombardeado,
saqueado e agora reconstruído Museu Nacional do Afeganistão envia uma
mensagem de teimosia e resistência.
Essas antiguidades
representam mensagens para os membros Talibã, que em 2001 quebraram
todos os artefatos do museu que, segundo sua interpretação, guardavam
alguma semelhança com figuras humanas ou com animais. Mas essa
reconstrução também é uma mensagem para outras pessoas: para os senhores
da guerra que saquearam o museu, alguns dos quais ainda estão em
posições de poder no Afeganistão, e para os corruptos guardiões do
passado, que ficaram de braços cruzados enquanto cerca de 70 mil objetos
saíam porta afora.
Apenas alguns anos atrás, o Museu Nacional
do Afeganistão, localizado na capital Cabul, era definido pela
quantidade de peças de suas coleções que tinham se perdido –cerca de 70%
de seu acervo foram destruídos ou roubados, incluindo objetos preciosos
que remontam à Idade da Pedra e à do Bronze, passando pelo período do
zoroastrismo e do budismo e pelo início do Islã, e que documentavam
algumas das culturas antigas mais misteriosas do mundo.
Atualmente, o Museu Nacional pode ser mais bem definido pela quantidade de peças que foram recuperadas.
Trezentos entre os 2.500 objetos mais importantes que o Talibã havia
destruído foram cuidadosamente restaurados nos últimos anos, e muitas
outras peças estão armazenadas em caixas e bandejas, aguardando sua vez
para serem recuperadas.
Os objetos roubados também estão
retornando ao museu, após agentes aduaneiros de todo o mundo terem
recebido informações sobre como identificar artefatos de origem afegã.
Nos últimos anos, a Interpol e a Unesco uniram forças com governos de
todo o mundo para confiscar e retornar pelo menos 857 objetos --alguns
deles de valor inestimável, como as estatuetas de terracota
representando princesas da Báctria (região do atual Afeganistão), com
4.000 anos de idade, que haviam desaparecido do Museu Nacional. Outros
11 mil objetos foram devolvidos depois de serem apreendidos pelas
autoridades de fronteira dentro do próprio território do Afeganistão.
A recente modernização do sistema de segurança do museu, financiada
pelo governo dos Estados Unidos, acabou de ser concluída, e agora o
prédio mantém pelo menos um nível satisfatório de proteção contra o tipo
de pilhagem que vinha atormentando a instituição repetidamente ao longo
das últimas três décadas e meia.
E uma equipe de arqueólogos do
Instituto Oriental da Universidade de Chicago está trabalhando no local
há um ano e meio --com a ajuda de uma subvenção do governo dos EUA, que
deve durar três anos-- para registrar todos os objetos pertencentes às
coleções do museu, criando um registro digital. Esse registro se destina
a proteger as peças contra roubos futuros, e o projeto também ajudará
na realização das restaurações, além de servir como um recurso para
estudiosos de todo o mundo.
"Se você não sabe o que possui, você
não é capaz de proteger suas peças", disse Michael T. Fisher,
arqueólogo norte-americano que coordena a equipe de Chicago. "Ao tomar
conhecimento de tudo o que você tem, toda a história se abre diante de
você, e é incrível o que se pode ver. Uma boa parte dessa coleção é de
nível internacional."
Omara Khan Masoudi é o diretor do museu.
Ele não é formado em arqueologia, mas tem credenciais ainda mais
importantes: é um dos principais guardiões do tesouro da instituição.
Esses guardiões são os homens que mantinham as chaves dos cofres dentro
dos quais alguns dos maiores tesouros do museu estavam escondidos,
incluindo o tesouro báctrio, uma coleção de requintados artefatos de
ouro e prata que datam de mais de 2.000 anos atrás.
Usando de
sua astúcia e de imposturas, Masoudi e seus companheiros guardiões
mantiveram muitos desses objetos de valor --principalmente aqueles mais
fáceis de serem derretidos-- seguros durante a violenta guerra civil do
país e o regime islâmico que se seguiu.
Eles esconderam algumas
das melhores estátuas em salas do Ministério da Cultura ou em cantos
obscuros das salas de armazenamento espalhadas por todo o museu,
preservando muitas delas antes do ataque furioso do Talibã, ocorrido em
março de 2001. Nessas poucas semanas de fúria, os combatentes islâmicos
se apressaram em destruir imagens de pessoas ou de animais, consideradas
por eles como sacrílegas, incluindo as antigas e gigantes estátuas de
Buda, localizadas na província de Bamian.
Depois desse ataque,
pessoas como Abdullah Hakimzada, um restaurador que passou os últimos 33
anos trabalhando no museu, foram chamadas para varrer os fragmentos dos
objetos que o Talibã havia destruído, distribuindo muitos dos cacos
apressadamente em sacos e caixas, que mais tarde ajudariam no trabalho
de restauro.
"Se nós tivéssemos tempo e recursos suficientes à nossa disposição, poderíamos restaurar tudo", disse ele.
Hakimzada também foi um dos principais guardiões de três cofres
localizados dentro do palácio presidencial, cofres que o Talibã nunca
encontrou.
Depois de anos de danos causados pelo Talibã e pelos
senhores da guerra afegãos, muitos dos quais saquearam as coleções do
museu a pedido de ricos colecionadores, o museu estava uma bagunça ao
ser reaberto, em 2004. Seus depósitos estavam lotados de caixas e sacos
cheios de fragmentos, e até mesmo objetos intactos tinham se deteriorado
durante os anos em que o museu ficou sem grande parte do teto.
Desde então, várias equipes de arqueólogos, principalmente equipes
francesas, ajudaram a reformar e a reorganizar o museu. Restauradores
como Hakimzada foram enviados ao exterior para estudar as técnicas de
restauração usadas por museus da Europa e dos EUA.
Quando a
equipe de Fisher começou a registrar e digitalizar a coleção, em 2012,
foi como fazer arqueologia dentro do próprio museu.
"Às vezes,
nos sentimos como se estivéssemos escavando o presente, como se
estivéssemos visitando o museu e observando o que aconteceu", disse ele.
Durante o processo, ocorreram descobertas marcantes, muitas das quais
ainda não foram colocadas em exposição por falta de espaço e de recursos
para a organização de uma mostra. Um novo local para o museu está
previsto, mas o projeto ainda está em fase de captação de recursos.
Alguns dos sucessos mais satisfatórios da empreitada de recuperação da
instituição afegã foram as restaurações de objetos despedaçados pelos
talibãs. Muitas vezes, os arqueólogos não sabiam nem mesmo a que objeto
os fragmentos pertenciam.
"Era como pegar 50 quebra-cabeças,
daqueles mais difíceis de montar e com as peças todas misturadas, sem
saber se você tem todas as peças e sem ter nenhuma imagem para te guiar,
e montá-los", disse Fisher.
Dificilmente um único dia se passa
sem que os arqueólogos de Chicago descubram algum novo e intrigante
objeto nos depósitos, como uma tampa de barro com uma inscrição em
Kharoshti, uma língua extinta, encontrada em dezembro passado.
"Há tantas peças que são muito, muito, muito bonitas", disse Masoudi. "Mas, primeiro, nós precisamos de um novo edifício".
As joias da coroa entre todas as coleções do museu são as peças do
tesouro báctrio, recuperadas em 1978 por arqueólogos russos em túmulos
antigos localizados no norte do Afeganistão.
Essas peças têm
estado em exposições externas desde 2007, e já foram vistas na França,
na Holanda, na Grã-Bretanha, na América do Norte e na Austrália. Elas
garantiram ao museu uma importante fonte de renda, que soma US$ 3,5
milhões até o momento.
Mas, como a guerra contra o Talibã se
estendeu, alguns aqui no Afeganistão veem mais um bom motivo para manter
essas peças em exposições externas.
"Eu, pessoalmente, espero
que elas nunca mais voltem ao Afeganistão", disse Hakimzada. "Pelo
menos, quando vemos o local onde as peças estão agora, nós sabemos que
elas estão seguras".
domingo, 24 de novembro de 2013
Como a Albânia protegeu os judeus dos nazistas

Joseph Berger
Houve um punhado de países europeus onde a máquina de matar nazista
engripou, mas poucas dessas históricas parecem mais dignas de nota e são
menos conhecidas do que a da Albânia.
Albaneses comuns ajudaram a transferir judeus de esconderijo para
esconderijo, para fugir da captura, e assim o país salvou praticamente
todos os 200 judeus nativos e outros 400 judeus refugiados da Alemanha e
Áustria. O país também ajudou a esconder centenas mais de terras nos
Bálcãs ocupadas pelos nazistas.
"A Albânia foi um dos únicos países europeus a ter mais judeus no fim
da guerra do que no início da guerra", disse Michael Berenbaum,
ex-diretor do projeto do Museu Memorial do Holocausto nos EUA.
Um quadro completo desse resgate só surgiu no início de 1990, depois do
colapso de um governo comunista particularmente obscuro e repressivo, e
foi confirmado pelo Yad Vashem, o instituto de pesquisa do Holocausto,
em 2007. Ele vai ser recontado em 8 de dezembro no Museu de Herança
Judaica em Nova York, quando descendentes de judeus resgatados e de
albaneses responsáveis pelo resgate darão depoimentos.
A Albânia tem razões práticas para querer que essa história seja
conhecida. O país está buscando adesão à União Europeia mas suas chances
estão prejudicadas por um histórico de corrupção enraizada. A história
de resgate não só destaca um episódio de magnanimidade albanesa, mas,
num momento em que a Albânia promete limpar seu governo, ela também
mostra que os albaneses cumprem suas promessas.
A história do resgate, disse Ferit Hoxha, embaixador albanês para as
Nações Unidas, mostra que "embora estivéssemos fechados num dos regimes
comunistas mais duros, as pessoas desta nação são nobres e tão capazes
de agir com coragem como qualquer um Europa".
Na maior parte da Europa, a Solução Final foi extremamente eficiente:
90% dos 3,3 milhões de judeus da Polônia foram mortos, 88% dos 240 mil
judeus da Alemanha, 77% por cento dos 70 mil judeus da Grécia, com
números semelhantes e assustadores em outros lugares.
A diferença excepcional na Albânia, dizem especialistas sobre o
episódio, estava enraizada numa crença nacional chamada 'besa' que
obriga os albaneses a oferecer abrigo e passagem seguro para qualquer um
que busque proteção, particularmente se houve uma promessa disso. A
omissão resulta em perda da honra e da reputação.
"Isso envolve a proteção sem exceção a um convidado, mesmo ao ponto de
perder a própria vida", escreveu Shirley Cloyes DioGuardi, uma das
organizadoras do evento em Nova York, cujo marido, ex-deputado Joseph H.
DioGuardi, visitou a Albânia no início de 1990 e ajudou a descobrir
detalhes sobre o resgate.
Outra explicação, diz Cloyes DioGuardi, é que, na Albânia, um país
católico romano e ortodoxo oriental até que o domínio otomano levou a
conversões para o islã a partir do século 15, a etnia sempre teve mais
valor do que a religião e a piedade é fervorosa. "Sabíamos que nossos
inimigos queriam usar religião para nos dividir e conquistar, mas
sabíamos que tínhamos o mesmo sangue", disse Akim Alickaj, um albanês
étnico criado em Kosovo que é dono de uma agência de viagens e cujo pai
ajudou a resgatar judeus. "A religião muda, mas a nação e o sangue não
podem ser alterados."
Dois outros países também preservara a maioria de seus judeus. Quando
os ocupantes alemães ordenaram a deportação de 7.800 judeus da
Dinamarca, em 1943, vizinhos, colegas e ativistas, numa manifestação
quase espontânea de ajuda e de resistência, transportaram mais de 7 mil
judeus, a maior parte em barcos de pesca, por um canal até a neutra
Suécia, de acordo com Bo Lidegaard, editor-chefe do jornal Politiken.
Bulgária se aliou aos nazistas e entregou mais de 11 mil judeus da
Macedônia e Trácia ocupadas para deportação para os campos de
extermínio. Mas quando uma ordem veio para deportar os cidadãos judeus
da própria Bulgária, membros do parlamento e líderes religiosos fizeram
pressão para o governo resistir, e 48 mil judeus sobreviveram.
Quando os nazistas entraram na Albânia, em setembro de 1943, tomando o
país dos fascistas italianos, mais brandos, dois judeus que moravam na
cidade de Vlora – Rafael Jakoel e seu cunhado – reuniram-se com o
prefeito. Ele disse aos irmãos, de acordo com a neta de Jakoel,
Felicita: "Enquanto vocês estiverem aqui, não têm com o que se
preocupar, mas os alemães são os alemães, então é melhor ir para a
capital."
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| Felicita Jakoel, em 1992, com seu pai, Josef, que conseguiu se esconder dos nazistas com a ajuda de albaneses. |
Rafael Jakoel e seu cunhado foram a Tirana para se encontrar com o
ministro de interior, Xhafer Deva, de um governo aparentemente fascista
que colaborava com o nazismo. O ministro até mostrou a eles uma lista de
judeus que os alemães haviam pedido. No entanto, o sentimento de besa
era tão forte que ele não entregou as pessoas da lista, disse Felicita
Jakoel.
"Enquanto estivermos aqui, vocês não precisam se preocupar", disse ele,
de acordo com Felicita Jakoel, que hoje, como muitos judeus albaneses,
vive em Israel. "Mas se algo nos acontecer você terá que cuidar de si."
Tradução: Eloise de Vylder
Fonte: Uol Internacional - The New York Times
Matéria Original: The New York Times
domingo, 17 de novembro de 2013
Kennedy passa de herói a equivocado estadista em livros didáticos dos EUA

Adam Clymer
Em Washington (EUA)
Em Washington (EUA)
O presidente John F. Kennedy que os alunos aprendem hoje não é o JFK de
seus avós. Em um livro didático de segundo grau escrito por John M.
Blum em 1968 , Kennedy foi um herói trágico, ceifado muito cedo de um
mandato transformador, que em seus meros mil dias no cargo
"ressuscitaram a ideia de uma América jovem, em busca, progressiva,
enfrentando o futuro com confiança e esperança."
Em meados dos anos 80, essa excitação inebriante já era uma memória
distante, e Kennedy uma memória diminuída. Um livro escrito em 1987 por
James A. Henretta e vários colegas, queixou-se do véu de "mitologização"
sobre seu mandato e disse que as grandes esperanças que ele gerou
produziram apenas "escassas realizações legislativas".
A primeira – e para muitos a última – lição aprofundada que os
estudantes norte-americanos aprendem sobre o 35º presidente vêm dos
livros didáticos do segundo grau. E na véspera do aniversário do
assassinato de JFK, há 50 anos, uma revisão de mais de duas dezenas de
livros escritos desde então mostra que os retrato dele desde então,
mostra que a imagem dele caiu acentuadamente ao longo dos anos.
Em geral, o retrato evoluiu de um jovem presidente carismático que
inspirou os jovens do mundo todo para um extremamente falho, de alguém
cuja oratória superou as realizações. Evitar uma guerra na crise dos
mísseis de Cuba recebeu menos atenção e respeito. Os retrocessos
legislativos e um envolvimento maior no Vietnã receberam mais. O glamour
da era Kennedy parecia mais ilusão do que a realidade.
Por exemplo, um livro de segundo grau de 1975 escrito por Clarence Ver
Steeg e Richard Hofstadter dizia que ao lidar com a crise dos mísseis
cubanos em 1962, "a verdadeira natureza de estadista de Kennedy ficou
totalmente aparente". Em "Um povo e uma nação", eles disseram que seu
limitado tratado de proibição de testes nucleares em 1963 "foi o
princial passo em direção à paz desde o início da Guerra Fria."
Quanto aos direitos civis, dizem, seu governo "não teve cooperação do
Congresso". Mesmo assim, escreveram, equivocadamente, "ônibus, hotéis,
motéis e restaurantes em grande parte aboliram a segregação" em sua
presidência. A maioria dessas mudanças aconteceu quando o Ato de
Direitos Civis foi assinado por seu sucessor, Lyndon B. Johnson, em
1964.
Usando o mesmo título em 1982, Mary Beth Norton e vários outros
assumiram uma abordagem muito diferente em um livro para o ensino
superior amplamente utilizado hoje em cursos de Advanced Placement
[cursos avançados para ingressar na universidade].
Eles disseram que FJK "defendeu os direitos civis com uma falta de
vigor notável". Eles o culparam pela crise dos mísseis, dizendo que os
temores de invasão cubana-soviética foram alimentados pelo pouso na Baía
dos Porcos em 1961 e outras ações dos EUA contra Cuba. Eles disseram
que o verdadeiro legado de Kennedy foi "uma imensa expansão militar que
ajudou a incitar os russos a uma acelerada corrida armamentista".
Em 2009, a "Jornada Americana" de Joyce Appleby disse sobre a crise dos
mísseis: "Embora parecesse uma vitória na época, deixou um governo
comunista intacto a poucos quilômetros da costa norte-americana. A
humilhação de ceder também levou os soviéticos a iniciarem a maior
escalada militar em tempos de paz da história."
Há uma grande variedade de motivos para esta mudança. Antes de mais
nada, o fascínio pelo presidente jovem e belo e seu assassinato em
Dallas elevaram Kennedy a um grau de heroísmo histórico impossível de se
manter.
Outro é que os novos escritores e editores acrescentaram persectivas
diferentes. Em particular, a geração do Vietnã começou a escrever e
editar, e o papel de Kennedy na guerra começaram a ganhar importância.
Além disso, seus casos extraconjugais vieram a público, alimentando as
críticas. E o lançamento de fitas da Casa Branca, a partir de 1984,
mostrou um político frio e pragmático, não o idealista em questões como
os direitos civis sobre quem as pessoas ouviram e fantasiaram.
Finalmente, os anos 80 tiveram uma mudança na historiografia dos livros
didáticos. Gilbert Sewall, diretor do Conselho Americano de Livros
Didáticos, uma organização sem fins lucrativos que analisa materiais
educativos, disse que a abordagem antiga era mais concentrada nos
sucessos da história norte-americana. Nos anos 80, disse ele, isso foi
substituído por uma abordagem "revisionista" que não só se concentrou em
injustiças como os maus-tratos aos índios, mas também enfatizou as
falhas de personagens antes tratados como heróis, como a atitude
escravagista de alguns dos fundadores da nação. "O livro de Norton
trouxe este revisionismo com clareza", disse ele.
Quanto a alguns aspectos da sua presidência, houve pouca mudança. Os
livros didáticos oferecem visões positivas sobre o Corpo da Paz e o
programa espacial. E a invasão fracassada à Baía dos Porcos em Cuba é
tachada de um "fiasco" várias vezes. Mas os direitos civis, o Vietnã e a
crise dos mísseis provocaram uma mudança nas visões.
Em seu livro de 1968 intitulado "Experiência Nacional: Uma história dos
Estados Unidos", Blum disse que primeiro Kennedy se "concentrou" em
ações do executivo, mas que em junho de 1963, ele "lançou uma nova
batalha por leis novas e mais abrangentes de direitos civis". Essa
medida, segundo ele, estava a caminho de ser promulgada quando Kennedy
morreu."
Do final dos anos 80 em diante, expressões como "perder tempo",
"dúvida" e "em cima do muro" eram comumente usadas para descrever a
postura inicial de Kennedy. Seu projeto de lei de 1963 foi descrito em
geral como "irremediavelmente paralisado", "amarrado" ou com "pouca
chance de aprovação" no Congresso antes de sua morte.
Sobre a crise dos mísseis, Henry Bragdon elogiou Kennedy em seu livro
de 1981 "História de uma Nação Livre", por exercitar a "moderação" e não
se vangloriar da retirada soviética. Blum escreveu: " O triunfo
norte-americano foi um tributo à combinação de resistência e moderação
de Kennedy e à sua compreensão precisa dos usos do poder".
Semelhante ao tratamento do livro Norton, Carol Berkin e Leonard Wood
escreveram em "Terra da Esperança: Uma História dos Estados Unidos" que
embora "Kennedy houvesse identificado com sucesso o blefe de
Khrushchev", sua vitória era "vazia" porque o líder soviético havia sido
expulso por linhas-dura que "começaram a maior escalada militar em
tempos de paz da história".
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| Ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy: herói ou farsa? |
Esta conclusão foi leve em comparação com a visão de Andrew Cayton no
livro "Estados Unidos: Caminhos para o presente", de 1998. Cayton
escreveu que, embora Kennedy parecesse um "herói" inicialmente, críticos
mais tardios o achavam "imprudente". Ele escreveu: "Kennedy não usou os
canais diplomáticos tradicionais para tentar resolver a crise, mas
proclamou sua disposição de chegar à iminência de uma guerra nuclear e
ir além. Ele evitou o desastre, observou Dean Acheson mais adiante, por
"simples sorte".
Sobre a guerra do Vietnã, alguns dos primeiros livros ignoravam
completamente Kennedy, tratando-o como uma guerra exclusivamente de
Johnson. Outros diziam simplesmente que ele "ampliara" a ajuda dos EUA
ao Vietnã do Sul. Em 1981, Bragdon escreveu que antes de sua morte houve
"evidências de que Kennedy havia decidido que a situação no Vietnã era
desesperançosa e havia decidido retirar as tropas norte-americanas do
país."
Mas os livros mais recentes o chamaram de "Guerreiro Frio", um termo
depreciativo, e enfatizaram que ele expandiu a guerra do Vietnã. Muitos
foram céticos quanto a uma possível retirada.
Muitos textos de diferentes décadas, mesmo aqueles que o criticaram
como o livro de Norton de 1982, reconheceram que Kennedy foi um líder
que alimentou a esperança. O livro de Norton de 1982, em geral negativo,
diz que ele "inspirou o idealismo nos norte-americanos".
Além disso, houve um reconhecimento generalizado de que Kennedy se tornou um melhor presidente durante seus 34 meses no cargo.
Gary Nash, cuja "Odisseia Americana" de 1991 disse que as "realizações
fragmentadas" de Kennedy não foram grande coisa, ainda assim disse que
Kennedy "aperfeiçoou-se no cargo" e concluiu: "à medida que seu mandato
progrediu, suas iniciativas se tornaram mais ousadas, e a forma como
lidou com o Congresso ficou mais agressiva e confiante."
Tradução de UOL Internacional - The New York Times
Versão Original: The New York Times
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
A América Latina e sua esquerda conservadora
Texto de Maye Primera, do El País
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| Nicolás Maduro, que declarou ter reencontrado a fé depois de se declarar ateu aos 18 anos por causa do comportamento da Igreja Católica |
Persignar-se e rezar ave-marias é reação comum entre a maioria dos
presidentes identificados com a esquerda na América Latina, quando em
seus países se invocam reformas ligadas aos direitos civis que
contrariam a tradição. Em temas como a descriminalização do aborto ou o
consumo de drogas brandas e o estabelecimento do casamento homossexual,
suas posições tendem ao conservadorismo e a mensagem religiosa é
incorporada cada vez com maior frequência em seus discursos políticos e
em sua argumentação. No continente onde convive a maior comunidade
católica do mundo, a esquerda parece ter-se convertido.
"Que façam o que quiserem, eu jamais aprovarei a descriminalização do
aborto", disse em 19 de outubro passado o presidente equatoriano, Rafael
Correa, que define a si mesmo como "humanista, católico e de esquerda".
Correa inclusive ameaçou demitir-se se os parlamentares do bloco
governista, a Aliança País, votassem a favor de incluir essa reforma no
novo Código Penal. "Se continuarem essas traições e deslealdades (...)
apresentarei minha renúncia ao cargo", advertiu o presidente equatoriano
na mesma oportunidade. O presidente da Conferência Episcopal do
Equador, monsenhor Antonio Arregui, celebrou de imediato a postura de
Correa "pela valentia e a nobreza de ânimo com que falou".
O tema do aborto é especialmente delicado entre a esquerda mais
revolucionária e antiga. A Nicarágua e El Salvador, onde governam
respectivamente o líder da Frente Farabundo Martí de Libertação
Nacional, Mauricio Funes, e o sandinista Daniel Ortega, são os dois
países em que se pune o aborto com maior severidade, sem que haja
perspectivas de uma reforma da lei. O governo de Funes foi criticado por
não intervir a tempo no polêmico caso de Beatriz, uma jovem
salvadorenha que corria perigo de morte devido a uma gravidez inviável,
que finalmente foi interrompida por um "parto induzido" que terminou em
cesariana. Daniel Ortega e sua mulher, Rosario Murillo, também se
opuseram firmemente à possibilidade de descriminalização do aborto
terapêutico. Depois de toda uma vida de ateísmo, o casal decidiu se
casar na Igreja Católica em 2005 e agora diz liderar uma revolução
"cristã, socialista e solidária"; o cardeal Miguel Obando y Bravo,
ex-inimigo do sandinismo, oficiou o casamento e agora costuma inaugurar
com uma oração os atos públicos da Frente Sandinista.
Deus também é onipresente nos discursos do venezuelano Nicolás Maduro,
que declarou ter reencontrado a fé depois de se declarar ateu aos 18
anos por causa do comportamento da Igreja Católica. "Hugo Chávez fez de
nós verdadeiros cristãos", disse o presidente venezuelano em 7 de abril
passado, durante um ato de campanha para as eleições presidenciais do
dia 14, nas quais foi declarado vencedor. A descriminalização do aborto e
do consumo de drogas como maconha, ou o estabelecimento do matrimônio
homossexual, não são sequer tema de debate na Venezuela governada por
Maduro, nem o foram durante os 14 anos de mandato de Chávez. Pelo
contrário, a condição de homossexual é assumida pela nomenclatura do
chavismo como desonrosa. O próprio Maduro, sendo chanceler, qualificou a
liderança opositora de "homossexuais e fascistas", durante um discurso
transmitido pela rede de TV estatal em 12 de abril de 2012.
Além da animosidade no uso da linguagem, há analistas como o
venezuelano Teodoro Petkoff – editor do jornal "TalCual" de Caracas,
ex-militante comunista e ex-guerrilheiro - que consideram que a esquerda
latino-americana está dividida em dois grandes blocos, que definem sua
posição. "Há uma esquerda ideologicamente formada, a mais antiga, que
costuma assumir com muita coragem posturas que confrontam o peso da
tradição", indica, referindo-se à esquerda uruguaia, liderada pelo
presidente José Mujica, e a setores da esquerda brasileira e argentina.
Há outra esquerda, afirma o editor de "TalCual", que se define em
termos políticos mais que ideológicos e que atende ao peso de tradições
morais centenárias, compartilhadas pelo grosso da população da América
Latina. "Essa espécie de neoesquerda de origem chavista, que de esquerda
só tem o apelativo, é absolutamente tradicionalista nessas questões. Em
alguns casos isto corresponde a uma atitude sincera sobre assuntos
morais e éticos que não separam religião de política. Em outros, é puro
oportunismo, na tentativa de se manter perto da clientela eleitoral",
conclui Petkoff.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalve
Fonte: Uol Internacional
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